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Comunidades tradicionais participam de campanha mundial sobre impactos climáticos na alimentação

17/01/2018

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Preparar receitas do cotidiano com a presença de um chef de cozinha, para Dona Helena e Dona Dete, foi uma novidade. Esse encontro aconteceu na última semana, nas comunidades de Testa Branca, em Uauá, e Raposa, em Caldeirão Grande, quando Fabrício Lemos, do restaurante Origem, foi conhecer o preparo de alimentos das famílias da região.

Os encontros, que integram a campanha Recipes for Change, foram promovidos pelo Pró-Semiárido, projeto do Governo da Bahia, financiado com recursos do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) e executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), e pela equipe da Divisão de Comunicação e Mudanças Climáticas, vinda de Roma, Itália.

O chef Fabrício Lemos apoiou a gravação de mais uma etapa da campanha Recipes for Change, que divulga vídeos com receitas preparadas em comunidades rurais de países em desenvolvimento. Nas receitas são utilizados ingredientes locais que estão em perigo de desaparecer devido a mudanças climáticas.

A campanha, lançada em 2014, pelo fundo das Organizações das Nações Unidas (ONU), é composta de episódios que têm a presença de chefs famosos, preparando pratos tradicionais, com a ajuda de agricultores familiares, em suas próprias casas, focando nos problemas relacionados a mudanças climáticas e segurança alimentar. Em quatro anos foram produzidos 15 vídeos.

O chefe da Divisão de Comunicação e Mudanças Climáticas do Fida, Brian Thomson, explicou a proposta da campanha: “Estamos propondo falar de mudanças climáticas de uma forma positiva. Geralmente, vemos morte e terror no discurso sobre o clima e as suas implicações. Mas a proposta é mostrar a resistência e a importância da preservação desses ingredientes utilizados pelas comunidades atendidas por projetos Fida no mundo”.

Foram gravadas duas receitas com ingredientes da agricultura familiar, uma com umbu, em Uauá, e a outra utilizando o licuri, em Caldeirão Grande. Em Uauá, acompanhado pela coordenadora do movimento pela boa alimentação do Slow Food, no Nordeste, Revecca Tapie, o grupo fez a colheita do umbu, com as catadoras de umbu da comunidade Testa Branca, e, em seguida, participaram de todo o processo de preparo da tradicional umbuzada, uma espécie de vitamina de umbu cozido com leite de cabra e açúcar, alimento presente no dia a dia das famílias da região.

Enquanto preparava a bebida, dona Helena contou a história da bebida na sua família. "Minha mãe já fazia umbuzada para mim e meus irmãos, desde crianças. Eu faço aqui em casa e minha filha já prepara sozinha. A tradição começa desde a ida ao umbuzeiro que, geralmente, fazemos em grupo, só com mulheres. É bom demais", falou sorrindo.

Em Caldeirão Grande, a receita foi preparada por Claudete dos Santos, catadora de licuri, que preparou um arroz com galinha caipira ao leite de coco de licuri, receita tradicional na comunidade quilombola de Raposa, e demonstrada, passo a passo, ao chef: “Eu já faço sem medir os ingredientes. No olho eu sei a quantidade de cada coisa”, contou.

Para o chef Fabrício Lemos, a oportunidade de estar na comunidade e de conhecer a cultura local é importante para o desenvolvimento do seu trabalho: "Nas minhas palestras falo sobre a valorização dos ingredientes locais, então esse contato com a Dona Helena só fortalece a minha fala e me ensina ainda mais, porém, precisamos investir na cadeia produtiva e no maquinário, para beneficiar a produção e gerar renda para esses agricultores familiares. Conhecer essa região me deixou surpreso, ao perceber o potencial enorme que ela tem". E continuou: “Quero ver esses alimentos consolidados no mercado. Toda vez que criamos um prato com licuri, despertamos lembranças de infância. E a nossa intenção é mostrar que o produto não ficou na infância, mas é atual”, concluiu.

Agricultura Familiar - A Recipes for Change destaca o fato de que cerca de 500 milhões de propriedades de pequenos agricultores são responsáveis por quatro quintos dos alimentos produzidos nos países em desenvolvimento. Essas propriedades são, muitas vezes, localizadas em terras marginais onde os impactos das mudanças climáticas são fortemente sentidos, reduzindo os rendimentos e as culturas.

O clima no planeta - Os agricultores familiares são considerados, pelos organizadores da iniciativa, parte da solução para a preservação do meio ambiente e para a crise climática. Partindo desta premissa, o impacto da mudança climática nas culturas alimentares e nas receitas tradicionais, especialmente nos países em desenvolvimento, podem ser minimizados com o aumento da conscientização desse impacto.

Para Custódio Muscavele, oficial do Fida em Moçambique, que estava finalizando um intercâmbio de seis meses no Brasil, “o fundo opera no Brasil com seis projetos, e todos eles são basicamente no Nordeste do país, com cerca de um milhão de quilômetros quadrados, com características de clima semiárido, cada vez com períodos mais longos de estiagem”. Ele explica que o objetivo dos projetos é ajudar as comunidades a conviverem com as características próprias dessa região, incluindo a preocupação com o meio ambiente e sua preservação.

Presenças - Participaram da missão, Brian Thomson, especialista em Comunicação, Paulo Cariati, na filmagem. Da equipe do Pró-Semiárido, participaram Emília Mazzei, assessora de Comunicação, Sérgio Amim, chefe do escritório de Juazeiro, Cleiton Lin, assessor de Políticas Públicas e técnicos que atuam do Serviço Territorial de Apoio à Agricultura Familiar (SETAF), do Território Piemonte Norte do Itapicuru.

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